Em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, o artesão Paulo Schaefer, conhecido carinhosamente por muitos como Paulinho dos Quadros, conquistou mais um espaço de destaque na história do RankBrasil - Livro dos Recordes Brasileiros. Desta vez, o recordista alcança o título de Maior Réplica em Formato de Kombi do Brasil, com uma impressionante obra artesanal de 1,45 metro de altura, 2,85 metros de comprimento e 1,25 metro de largura.
Mais do que uma peça de grande impacto visual, a obra representa um marco profundo de
reconstrução pessoal, artística e emocional. Produzida em apenas 12 dias, a réplica foi criada no ateliê do próprio artista e inicialmente exposta em uma rede atacadista de alimentos, atendendo a uma solicitação comercial que buscava um expositor retrô de produtos, remetendo às tradicionais temporadas de praia.
Uma kombi que desperta memória, encanto e surpresa
A escolha da kombi como inspiração não foi por acaso. Segundo Paulinho, antigamente eram muito comuns as excursões para a praia feitas nesse veículo, o que traz um forte apelo afetivo e nostálgico. A proposta atendeu plenamente à expectativa do cliente e, ao mesmo tempo, deu origem a uma obra capaz de despertar emoção, curiosidade e admiração no público.
Construída de forma inteiramente artesanal, a réplica foi feita exclusivamente com a mão de obra do próprio artista, desde a criação, estrutura, montagem e pintura, sem participação de terceiros.O trabalho utilizou chapas e retalhos de MDF sem condição de uso para móveis, além de madeiras descartadas da construção civil, reafirmando uma característica marcante de sua trajetória: a capacidade de transformar materiais considerados sem valor em arte de alto impacto.
Arte feita à mão, no detalhe e na persistência
A maior dificuldade durante o projeto esteve na construção da estrutura, principalmente por causa do tamanho e do peso da peça. Mas, como em tantas obras artesanais grandiosas, foram os detalhes que exigiram o maior nível de concentração. Entre eles, um dos pontos mais impressionantes foi o rodado.
Mesmo sendo todo confeccionado em madeira, o acabamento ficou tão fiel ao original que muitas pessoas perguntam onde ele teria encontrado pneus naquele tamanho. Quando Paulinho responde que também são feitos em madeira, o público se aproxima para conferir de perto, surpreso com o nível de realismo alcançado.
Esse cuidado minucioso com os detalhes, aliado à robustez da obra, revela de forma clara a
identidade artística do artesão. Em projetos maiores, Paulinho costuma planejar a estrutura de cabeça, desenhando diretamente sobre a madeira. Depois dos cortes feitos de forma artesanal, monta a base e segue para a etapa mais demorada: os detalhes e a pintura.
Da exposição comercial à futura Kombi Biblioteca
Além de cumprir com excelência a proposta inicial do cliente, a obra ganhou um novo e ainda mais nobre destino. Após retornar ao ateliê, a réplica começou a ser transformada em uma Kombi Biblioteca, que será doada para uma escola de educação infantil.
Com isso, a peça ultrapassa o campo estético e comercial, tornando-se também um instrumento de incentivo à leitura, à educação e à consciência ambiental. Durante sua produção, muitas pessoas acompanharam o processo, e Paulinho viu ali mais uma oportunidade de mostrar a importância de cuidar do meio ambiente e de reaproveitar materiais que muitos chamariam de lixo, transformando descarte em beleza, utilidade e inspiração.
A enchente de maio de 2024 e o momento mais difícil de sua trajetória
Se esta conquista já seria especial por si só, ela ganha proporções ainda maiores quando se
conhece o contexto em que nasceu. Em maio de 2024, São Leopoldo foi duramente atingida pela maior enchente de sua história, e Paulinho esteve entre os afetados.
Ele saiu de casa acreditando que retornaria no dia seguinte. Mas esse outro dia demorou mais de vinte dias. Nesse período, ele e sua família viveram a angústia da espera, sem saber como nem quando poderiam voltar. Quando finalmente o retorno aconteceu, o cenário era devastador: ateliê tomado pela lama, tintas espalhadas, moldes perdidos, desenhos estragados, ferramentas sujas, enferrujadas e danificadas, matéria-prima completamente comprometida. Como ele mesmo resume, sobrou martelo e prego.
Diante do impacto, não houve outra saída além de encarar a realidade e começar tudo de novo.Primeiro veio a reconstrução da casa. Depois, a do local de trabalho. Após a limpeza pesada, Paulinho desmontou as paredes, lavou as tábuas que ainda poderiam ser aproveitadas e começou a reerguer o ateliê com o que tinha ao alcance. Sem recursos financeiros, saiu pela vila recolhendo tábuas em condição de uso, lavou, separou, reutilizou e transformou novamente seu espaço em um ambiente acolhedor e pronto para a criação.
Quando faltou tudo, restou a criatividade
Mesmo com o ateliê reconstruído, o abalo emocional ainda era enorme. Ao receber os primeiros materiais para voltar ao trabalho, viveu um dos momentos mais críticos de toda essa fase.
Procurou um lápis, uma caneta, moldes e referências, e percebeu que não tinha mais nada. Foi nesse instante que desabou. Fisicamente e mentalmente esgotado, procurou ajuda médica e recebeu diagnóstico de exaustão física e mental. O tratamento incluía descanso. E foi justamente nesse período que a arte, mais uma vez, serviu como remédio. Enquanto descansava, pensava em tudo o que ainda faria, em tudo o que poderia reconstruir e em tudo o que ainda seria capaz de criar.
Após uma semana, retomou as atividades com uma convicção renovada: nada seria como antes, e isso poderia ser positivo. Sua exposição natalina melhorou, sua pintura melhorou, suas criações evoluíram. Sem os antigos moldes, passou a depender ainda mais da própria criatividade. E foi justamente nesse novo tempo que surgiu o projeto da kombi.
O recorde que marcou o recomeço
Quando foi procurado para executar a obra, Paulinho percebeu que ali havia algo maior. A réplica da kombi era mais do que um trabalho encomendado: era a chance de provar para si mesmo que seu talento seguia vivo, intacto e ainda mais forte.
A conclusão da obra, somada à reconstrução do ateliê e à recuperação de outra peça importante de sua trajetória, a Santa Ceia, gerou nele a sensação clara de continuidade, capacidade e renascimento. Não por acaso, define esta conquista como a mais especial de todas.
Em suas próprias palavras: Este recorde representa a primeira grande conquista na nova fase do meu trabalho. E há ainda outra frase que resume com força o impacto da tragédia e o amadurecimento que ela provocou: Antes da enchente os pequenos problemas pareciam grandes; após a enchente, os grandes problemas se tornaram pequenos.“Uma conquista é um feito, várias conquistas é um legado.”
Estou em busca de um legado.
Uma trajetória construída com prática, fé e propósito
Artesão desde dezembro de 2008, Paulinho afirma que o reconhecimento do RankBrasil era um objetivo presente desde os seus primeiros trabalhos. Segundo ele, ainda no começo da trajetória, o pensamento era simples e insistente: praticar, praticar, praticar, porque a hora certa chegaria.
A primeira homologação, com a obra Santa Ceia, trouxe repercussão, visibilidade e confiança.
Depois veio o segundo recorde, relacionado ao Carro Forte, reforçando a certeza de que estava no caminho certo. Agora, com a conquista da maior réplica em formato de kombi do Brasil, ele não apenas soma mais um título, mas reforça um legado construído com persistência, autenticidade e amor ao fazer artesanal.
Paulinho também destaca que a postagem feita pelo RankBrasil após o período crítico foi
fundamental para que continuasse sua jornada. Em um momento de fragilidade, sentir seu trabalho reconhecido e lembrado publicamente teve papel decisivo para renovar suas forças.
Uma arte simples na essência, gigante na mensagem
Ao longo dos anos, o artesão foi se tornando uma figura conhecida e admirada por seu trabalho, inclusive nas ruas e nas redes sociais. Comentários carinhosos, elogios espontâneos e até crianças dizendo que querem ser artesãs quando crescer fazem parte da motivação que o mantém em movimento.
Seu apelido, Paulinho dos Quadros, nasceu justamente da repercussão de uma de suas primeiras obras marcantes, um quadro com a imagem do Padre Reus. Desde então, a arte feita por suas mãos passou a ocupar um lugar afetivo na memória de muitas pessoas.
Ele define sua caminhada de forma simples e profunda: Uma história escrita através de uma arte simples, que procura passar uma mensagem a cada obra realizada. E talvez nenhuma outra combinação resuma melhor sua nova conquista do que as palavras que ele próprio escolheu como força de vida: família, arte, fé e esperança.
Em busca de um legado
O público já acompanha com expectativa seus próximos passos, e Paulinho confirma que novos projetos já estão sendo elaborados. Com a experiência acumulada, várias etapas hoje se tornaram mais fáceis, trazendo mais segurança para ousar ainda mais.
Paulo Schaefer segue construindo não apenas obras impressionantes, mas um legado de
superação, reinvenção e arte com alma brasileira. Esta nova homologação pelo RankBrasil - Livro dos Recordes Brasileiros coroa um período de intensas adversidades e transforma a kombi de madeira em símbolo de força, persistência e renascimento.