O acesso à literatura também pode nascer pelas mãos. Com essa proposta sensível, educativa e transformadora, o projeto Clássicos em Libras, de São Paulo (SP), entra para o RankBrasil Livro dos Recordes Brasileiros com o título de Maior Coletânea de Clássicos da Literatura Animados em Libras.A coletânea reúne 14 filmes animados, inspirados em obras clássicas da literatura e histórias conhecidas por diferentes gerações. Entre os títulos adaptados estão Moby Dick, Sítio do Pica-pau Amarelo, Lancelot, A Lebre e a Tartaruga, O Corvo e a Raposa, O Ladrão e o Cão de Guarda, As Moscas e o Pote de Mel, O Leão e o Rato, O Burro que Carregava Sal, Os Três Porquinhos, O Patinho Feio, Chapeuzinho Vermelho, João e o Pé de Feijão e João e Maria.
O primeiro filme foi lançado oficialmente em 9 de maio de 2026, disponibilizado gratuitamente no YouTube e no site oficial do projeto. A proposta é que todo o conteúdo permaneça acessível ao público, permitindo que crianças, jovens, famílias, educadores, estudantes de Libras e a comunidade surda tenham contato com obras importantes da literatura por meio de uma linguagem visual, lúdica e inclusiva.Mais do que uma coletânea de animações, o projeto nasce com uma missão: levar o interesse pela literatura à juventude e tornar esse conteúdo acessível ao público surdo. A iniciativa reconhece uma realidade ainda presente no Brasil: a dificuldade de encontrar entretenimento de qualidade, pensado com representatividade linguística e cultural para pessoas surdas.
Produção coletiva e acessibilidade
O projeto Clássicos em Libras é composto pela Sociedade Veteranos de 32 – MMDC e pelo Pavy Estúdio. A organização conta com representantes como Carlos Alberto Maciel Romagnoli e Janaína Exposito Pinto. Já a produção dos filmes é realizada pelo Pavy Estúdio, com Paulo Henrique Silva Rodrigues dos Santos, Letícia Mello e diferentes animadores, conforme as características de cada obra.A interpretação e consultoria em Libras ficam sob responsabilidade da FG Libras, com participação de Gean Barbosa, Fabielle Barbosa e Tatiane Lui Zancanaro. Gean e Fabielle são intérpretes ouvintes com vasta experiência, enquanto Tatiane é professora surda, também com ampla trajetória na área. A presença de profissionais especializados garante maior cuidado na construção da linguagem, na compreensão dos sinais e no respeito à comunidade surda.
O processo de criação envolve estudo das obras, acompanhamento pedagógico, elaboração de roteiro, gravação dos diálogos em Libras e animação baseada nos movimentos dos intérpretes. Após a primeira versão, os vídeos retornam aos profissionais de Libras, que avaliam se os sinais estão compreensíveis. Somente depois dessa validação o episódio é finalizado.Esse cuidado mostra que a adaptação não é apenas uma tradução. Transformar uma obra literária em Libras exige reconstruir sentidos, respeitar a expressão visual da língua e encontrar caminhos para que personagens, emoções e acontecimentos sejam compreendidos de forma natural pelo público surdo.
Literatura, arte e representatividade
As animações são produzidas em 2D e, em alguns filmes, também em 3D. Além de aproximar o público da literatura, a coletânea busca despertar o interesse pela arte, utilizando diferentes estilos visuais ao longo dos episódios. Essa escolha também traz desafios técnicos, especialmente porque a Libras depende de movimentos expressivos, claros e precisos.O conteúdo é apresentado em Libras e conta com narração em português, permitindo que pessoas ouvintes e pessoas que ainda não conhecem Libras também acompanhem as histórias. O projeto ainda prevê a inclusão de audiodescrição futuramente, ampliando ainda mais o alcance da acessibilidade.
O projeto se tornou viável graças à emenda parlamentar destinada pelo vereador Adrilles Jorge, com o apoio da Prefeitura de São Paulo.
Uma trajetória ligada à Libras
À frente do Pavy Estúdio está Paulo Henrique Silva Rodrigues dos Santos, animador, ilustrador e autor de livros infantis. Ele também é criador de Min e as Mãozinhas, reconhecido como o primeiro desenho animado em Libras. Sua trajetória com a língua já soma oito anos de produção de animação, entretenimento e projetos ligados à acessibilidade.A relação de Paulo Henrique com a Libras nasceu de uma experiência pessoal marcante. Em um casamento, ele conheceu uma mulher surda, mas não conseguiu se comunicar com ela. A situação revelou uma falha ainda comum na educação brasileira: a distância entre ouvintes e surdos pela falta de conhecimento da Libras. A partir dessa percepção, ele pesquisou, criou seu primeiro projeto e passou a desenvolver conteúdos voltados à inclusão.
Agora, com o Clássicos em Libras, essa caminhada ganha uma nova dimensão. A literatura, que tantas vezes chega às crianças por livros, narrações e filmes convencionais, passa também a ser apresentada por meio de uma língua visual, viva e legítima.
Conteúdo gratuito e sonho de expansão
A coletânea será acompanhada pelo público principalmente pelo canal oficial no YouTube e pelo Instagram do projeto. A equipe também mantém interesse em apresentar o conteúdo a escolas, instituições, bibliotecas e espaços educacionais, ampliando o impacto social da iniciativa.Para os realizadores, o grande sonho é que a coletânea cresça ainda mais e leve mais conteúdo de qualidade ao público surdo. A proposta é ver pessoas surdas cada vez mais representadas no entretenimento e com mais acesso a obras importantes da literatura.
Com criatividade, compromisso social e valorização da Libras, o Clássicos em Libras transforma histórias conhecidas em pontes de acesso. Cada animação representa mais do que um episódio: representa o direito de imaginar, aprender, se reconhecer e participar da cultura brasileira com igualdade.